A mãe suficientemente boa


24 de mai de 2017



Hoje tem um texto da Chris em que ela fala sobre ser uma mãe suficientemente boa para seus filhos. 
Vale muito a pena a leitura.


A MÃE SUFICIENTEMENTE BOA


mae suficientemente boa


Quando um bebê nasce, junto com ele nasce muitas certezas, mas também muitos questionamentos, dúvidas e angústias. Mães procuram por respostas e por mais informações que consigam, nunca é o bastante. Culpam-se muitas vezes e a frustração acaba sendo inevitável!

Mas porque isso acontece? Porque, toda mãe quer ser “suficientemente boa” para seu filho, suprir suas necessidades, mas sempre com a sensação de que esta falhando.

Desta forma, vamos entender: Mas o que é uma “mãe suficientemente boa”?


Essa é uma expressão que foi usado pelo psicanalista inglês D.W. Winnicott em seus estudos sobre o vínculo mãe e filho, onde explica que não existe um bebê, e sim um bebê com sua mãe, estes em um cenário que segundo ele, não é necessário a mãe ter uma compreensão intelectual de sua função ou tarefas, pois ela está preparada para a mesma, em sua essência, pela orientação biológica em relação ao seu próprio filho, implicando mais o fato de sua devoção do que de sua compreensão para que seja suficientemente boa para obter sucesso nas primeiras etapas da vida do bebê. É exatamente quando ela confia em seu próprio julgamento que está em sua melhor forma.

Quando a mãe se permite agir, conforme suas certezas sobre o que é melhor para seu bebe, passa a viver a plenitude da maternidade, afinal é sentindo-se livre para agir, que aprimora-se na função materna. O vínculo mãe e filho é muito intenso e o responsável por trazer ao bebê o ambiente protetor e confiável o qual ele precisa.

A relação com a mãe, suficientemente boa, leva o bebê a administrar sua espontaneidade e expectativas externas, ajudando assim, a formar a mente do bebê. Ela possibilita a experiência da onipotência primária, base do fazer criativo, pois a mesma aceita, consciente ou inconscientemente, as expressões do seu bebê como a fome; os incômodos; o prazer; o desejo. Ela não impõe, permitindo ao filho experiências nas quais ele é sempre sujeito, desta forma ele crê que ele cria o mundo, sendo esta a percepção criativa do mundo, a experiência do self, núcleo singular do sujeito. Winnicott acredita que a localização do self no corpo não é uma experiência dada desde sempre, mas sim fruto do desenvolvimento saudável, formando-se o verdadeiro self do bebê.

É importante refletir, que atender apenas as necessidades fisiológicas do bebê, acreditando que isso seja o suficiente, é um grande equívoco. Segundo Winnicott, para o bebê tornar-se sujeito, é imprescindível que o mesmo seja, desde o início, reconhecido como pessoa e não como objeto. Por exemplo, o bebê não se importa tanto que lhe deem a alimentação na hora precisa, mas que seja alimentado por alguém que ama alimentá-lo, assim, o prazer materno nos cuidados é estar realmente presente nesta relação com o bebê, levá-lo ao seu desenvolvimento pleno, desta forma, se a função materna não for prazerosa, acontecendo de forma mecânica, o bebê não se estrutura e definha ou adoece.

Nos primeiros dias, é através da forma como é cuidado, que o bebê reconhece a mãe, assim como suas características físicas (detalhes do mamilo, formato de orelhas, sorriso, hálito entre outros). Com o passar do tempo, o bebê começa a ter ideia da totalidade da mãe, mas independente do que possa perceber, ele precisa da presença constante e inteira da mãe, pois esta presença é vital e sem ela, nenhuma técnica, receita ou conselho serão efetivos.

Sendo assim, num primeiro momento o amor deve se manifestar de forma física, para poder satisfazer sua necessidades, fornecendo um ambiente psicológico e primordial para o desenvolvimento emocional do bebê.  Segundo é ela quem apresenta o mundo externo, então o bebê passa a perceber que o mundo vai além da mãe, que existe vida interna e externa, a mãe o ajudará a perceber  que este mundo contém o que é amado e necessário. O terceiro momento é quando esta mãe que capacitou na criança a ilusão  de que o mundo foi criado a partir de suas necessidades e imaginação, terá agora que leva-lo ao processo de desilusão desse mundo, que constitui um processo mais vasto do desmame  - podendo ser chamado de castração, aonde a mãe, segundo Winnicott  oferece ao bebê a possibilidade de desenvolver sua capacidade criadora, podendo assim crescer  e constituir-se através de talentos amadurecidos e contribuir futuramente para a sociedade.

Porém o psicanalista deixa claro que, a mãe não pode privar o filho dela, quando falamos do desmame por exemplo, sem antes ter significado tudo para esta criança,  uma vez que se mantém o princípio de que o desenvolvimento emocional do bebe só pode ser consolidado com base na relação com uma mãe suficientemente boa, pois esta é capaz de se adaptar às necessidades do bebê para que ele não perceba que o mundo já estava lá  antes que ele tivesse sido concebido ou concebesse o mundo.


A partir dai, a mãe suficientemente boa, vai de um modo saudável apresentando o mundo ao bebê, preparando-o para encontrar um mundo cheio de ideias e objetos a ser explorado.

Segundo Winnicott, o ser humano que começa a vida sem a experiência de onipotência não tem chance de se tornar uma peça na engrenagem da vida.     


D.W.Winnicott, “A criança e o seu mundo”, Rio de Janeiro: LTC, 1982.

Christiane Junqueira, psicóloga, especialista em Psicologia Hospitalar pela FMABC – Faculdade de Medicina do ABC, Neuropsicologia pelo INESP – Instituto Neurológico de São Paulo e aprimoramento em Reabilitação Cognitiva também pelo INESP.


2 comentários:

  1. Não sabia que tinha esta expressão "a mãe suficiente boa! Para mim é algo incondicional, o amar, cuidar e proteger.Claro, tem casos e casos. Mas tenho o entendimento de que não exite mãe boa ou mãe ruim. Existe a mãe e pronto!
    Mas gostei do texto!

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  2. Realmente, impossível não vincular bebê e mãe...Nunca se pensa nele sozinho.
    O vínculo afetivo, sem dúvida, é fator primordial, para a edificação da saúde física e emocional do ser humano. Ótimo post!

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