O post de hoje é da minha querida amiga Luciana do Recem Mãe e ela fala sobre Depressão Pós - Parto, um assunto importante e que deve ser de conhecimento de todos.

E com certeza esse post vai ajudar muitas mamães que estão passando por isso no momento.

Minha relação com a Depressão Pós-Parto



No auge da minha adolescência, no momento em que a maioria dos jovens quer se divertir, conhecer novas pessoas, “viver a vida”, me vi diante de uma doença que até então eu não entendia nada. Eu não tinha vontade de nada: de comer, nem beber, muito menos dormir ou me olhar no espelho, nem sequer do quarto saía. Minha família preocupada com essa situação procurou um especialista que, a muito contra gosto, fui. Achava que psiquiatra cuidava apenas de “loucos”, o que eu não era. Aos poucos fui entendendo o que eu tinha: que depressão não era frescura, e sim uma doença que tinha tratamento. Medicada e com melhoras significativas decidi que era hora de ter “alta” do tratamento, já que havia restabelecido a auto estima, vontade de viver e enfim ser uma adolescente cheia de vida. Abandonei os medicamentos, o tratamento, tive crises de abstinência mas me sentia viva e cheia de vontade pra viver. Tive uma vida normal, com altos e baixo como qualquer ser humando tem. Na minha consepção, a depressão era assunto encerrado.


Sempre sonhei em ser mãe, brincava que eu era mãe das minhas amigas e minhas bonecas sempre eram meus bebês. Após meu casamento essa vontade veio mais forte ainda, me fazendo sonhar em ter meu filho no ventre. Meu marido e eu decidimos que era hora de “engravidarmos” e, para isso, fizemos todos os exames preventivos necessários, cuidei do corpo para receber meu bebê, me preparei para uma nova rotina que teria e, mesmo antes de ter o positivo, me sentia mãe. Planejei cada momento da minha gestação, que mesmo antes do exame gestacional, sentia meu filho no meu útero. Me preparei fisicamente, mas não meu pscicológio! Eu queria tanto me ver grávida que não pensei nas mudanças psicológicas que isso iria trazer, até porque estava “curada” da depressão e a minha vontade era maior que qualquer doença que poderia ter. Simplesmente não me preparei para nada relacionado ao meu estado psicológico.
Durante a gestação, me vi numa montanha russa de sentimentos e tudo era muito intenso a ponto de uma simples palavra, sempre muito mal interpretada por mim, já ser motivo para chorar um dia inteiro e me sentir a pior pessoa do mundo ou brigar com todos ao meu redor. Pode até ser que a alteração hormonal da gestação tenha contribuido com isso, mas na verdade eu sempre fui muito intensa, a ponto de fazer birra e chorar sempre que era contrariada ou quando não tinha o que queria.
As semanas foram passando, a barriga começou a aparecer e a sensação de ser mãe me invadia. Sentir o chute dele dentro de mim e ouvir seu coração batendo acelerado em cada ultrassom me realizava. Porém, aproximando da data do parto, eu congelei. Comecei a ficar com medo, não queria que meu bebê saísse dali de dentro. Dois dias antes do seu nascimento comecei a ter contrações e simplesmente as ignorei. Ele não iria sair do meu útero, não era a hora. Mas quando seria? Nunca. Quando não teve mais como esconder as contrações, com 5 centimentros de dilatação e trabalho de parto ativo, me levaram para o hospital e não tinha mais como enganar: com 37 semanas e 2 dias, João Pedro tinha decidido que era a hora dele conhecer o mundo.
Foi nesse momento que meu chão acabou. Dentro do centro cirúrgico, me preparando para a cesariana (pois meu medo me impediu de tentar o parto normal), tive duas crises de ansiedade muito fortes, onde meu desejo era sair dali e voltar para casa e proteger meu filho dentro do meu ventre, como estava sendo e dando certo. E quando ouvi seu choro, eu chorei junto, mas não de emoção ou por ele estar bem. Chorei de medo, pois não sabia o que eu ia fazer, como cuidar dele. Mas me mantive forte durante toda a internação, passei a imagem de fortaleza e que nada me abalaria.
Quando tive alta hospitalar me senti perdida. O que ia acontecer? O que seria de mim? Três dias após o nascimento do João Pedro, entrei em pâncio e novamente tive crise de ansiedade. Eu só enxergava a minha mãe e o desespero que sentia era tão intenso que a sensação que tinha era que o tempo havia parado. Meu filho estava ali, havia o desejado tanto, mas a única coisa que eu queria era que ele nunca tivesse existido. O cansaço era tamanho que não conseguia olhar para ele de forma alguma.
Eu sentia um nó tão grande na garganta toda vez que ele chorava, que minhas lágrimas rolavam sem ao menos eu perceber. Diante de tudo isso, e ciente do que havia enfrentado no passado, minha família decidiu que precisava novamente procurar um psiquiatra. Dessa vez, fui com a mente aberta, eu entendia que precisava, mesmo não querendo.
Numa primeira avaliação, fui diagnosticada com Ansiedade Patológica e logo comecei a tomar ansiolitico e medicação para dormir (não dormia desde o nascimento dele). Os dias foram passando, o choro aumentava cada vez mais e o desespero nunca passava. Náo sendo suficiente, comecei a ter fobia de lugares com aglomerados de pessoas, como supermercado ou shopping, pois começava a ter crises de ansiedade, falta de ar, suar frio e sempre me via sendo perseguida. Sem contar que se meu bebê chorasse, eu chorava junto.
Um mês após o parto não tive progresso. O medo e o choro ainda eram intensos e achava que a única solução para isso tudo acabar era não mais estar aqui. E meu filho estava ali, crescendo e eu me sentia tão culpada por não amar ele como toda mãe ama um filho, como era mostrado em novelas e filmes. Todos ao meu redor o amavam. Eu  era a mãe dele e não sentia amor. A culpa tomou conta de mim. Após retornar ao psiquiatra, numa segunda avaliação, fui diagnosticada com a Depressão Pós-Parto e a medicação novamente alterada. Como tratamento auxíliar, a terapia foi indicada, mas não concordei que tinha depressão, isso já era passado; eu tinha vencido essa doença. Mesmo contra vontade, decidi fazer as sessões e ao menos confiar um pouco no resultado que ela me traria, afinal eu era mãe e tinha um bebê que dependia de mim. Para tudo!
Dessa vez a terapia foi diferente, pude entender muitas coisas que lá no passado não conseguia entender. Entendi que na verdade eu não queria ser mãe, nunca estive pronta para ser mãe. Eu queria estar grávida e existe uma diferença imensa entre ser mãe e estar grávida. Infelizmente consegui perceber essa diferença apenas após o nascimento do meu filho, mas que aos poucos estava superando e o amor pelo meu bebê começou a tomar lugar da angústia e do medo.
Mas ainda faltava um caminho longo a seguir para estar totalmente livre de todo esse sentimento ruim. Tive várias crises de ansiedade, alternava momentos que não conseguia desgrudar do João Pedro para nada com uma vontade que ele não existisse. Quando comecei a acreditar que estava curada, tive um surto muito grande em que tentei o suicídio. Infelizmente, por uma coisa tão pequena e sem importância, explodi de uma forma tão exagerada que só conseguia pensar na péssima mãe que eu estava sendo e no trabalho desgastante que eu estava dando ao meu marido e minha família, que na minha mente a única solução era morrer.
Após esse episódio, em uma conversa com minha psicóloga (não conseguia ver as sessões como consulta, e sim como uma conversa que podia me abrir sem ser julgada) decidi que iria mudar e tentar lutar contra esse sentimento ruim que ainda estava sentindo pelo meu filho. Ele estava aqui, crescendo saudável e numa velocidade absurda e eu estava perdendo esses momentos, me escondendo dentro de casa. Isso não ia mudar, ele não desapareceria assim que abrisse os olhos, não poderia guardá-lo quando cansasse de brincar, como fazia com as minhas bonecas. Então, a cada crise e a cada surto, só seria pior: ele estaria sentindo tudo isso e o que ele mais precisava era da tranquilidade e segurança que apenas eu poderia transmitir a ele.
Ainda estou em tratamento e dessa vez compreendi que preciso disso para ser uma mãe melhor e ficar bem comigo mesma. Hoje entendo que a depressão é uma doença e que precisa ser levada a sério como outra doença, e não cabe a nós decidir quando o tratamento acabou. Travo uma batalha todos os dias e o amor que sinto pelo meu filho é o combustível para vencer meus medos e insegurança. E é por ele que quero sempre estar bem e proporcionar ao meu filho a segurança, proteção e tranquilidade da qual ele precisa.

Por Luciana Emely – mãe e blogueira do Recém Mãe Blog, que foi criando no intuito de levar a outras mães o conhecimento sobre essa doença tão real e que pode atingir a todas nós – sem distinção. 

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6 Comentários

  1. Uau, que relato incrível! Sincero, aberto e de coração! Sou fã da Luciana e agora ainda mais!

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  2. Muito importante falar sobre este tema, pois cada vez é mais frequentes e nós não estamos preparadas para no momento mais esperado ter uma depressão e muitas vezes até demora a ser diagnosticada. Bjs Regina

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  3. Nossa Lu, fiquei muito arrepiada com seu relato e sua coragem em dividir assim sua história. Parabéns pela força em enfrentar essa situação, que tenho certeza deve ser imensamente difícil. Te admiro muito e vou rezar pra você continuar seu caminho com muita luz e fé.

    Um beijo,

    Clau
    @as_passeadeiras

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  4. Tenho muito medo disso, fico bem atento se está tudo bem com a minha esposa durante e depois a gestação.

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  5. Fase complexa né?! Todo apoio e ajuda é super bem vinda!

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  6. Lu, só imagino que difícil deve ser. Muita força e luz para você!

    Beijo,

    Clau

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